mini-elderHistórias de São João da Barra

Fernando Antônio Lobato Borges

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A casa da Câmara e Cadeia de SJB

Por Fernando Antônio Lobato Borges

Foto: Fernando Antônio Lobato Borges

Para efetivar a criação da Vila de São João, de sua obrigação, o Visconde de Asseca precisaria construir ao menos 30 casas, com colonos; igreja e casa de Câmara. O pequeno arraial, em torno da capelinha de São João, já possuía mais de trinta casas que formavam a rua da Boa Vista, faltava portanto a casa de Câmara. Com a instituição da Vila e eleição do Senado, era necessária uma casa para as reuniões. A princípio, eram realizadas ou na casa do Sargento Mor João Velho Pinto ou na varanda da igreja.

Em 01/09/1692, vindo em primeira Correição, o corregedor do Rio de Janeiro Dr. Miguel de Siqueira Castelo Branco, a quem pertencia a região dos campos dos Goytacazes, deu início para a construção da casa. Mas só em 1694 sob o corregedor Manoel de Souza Lobo, foram feitos melhoramento na Vila.

Por essa época foi adquirida, por sete patacas, à Cecília Andrade, um terreno com uma casa velha, em frente à matriz . Em 1697, o Senado expediu uma solicitação ao Capitão Mor, como procurador do Donatário, para que mandasse fazer na Vila, Casa de Vereança, com sala de audiência e sala de tronco separadas. Também solicitaram que o procurador mandasse dois escravos para ‘embarrear’ a casa, que já estava construída em ‘ponto de palha’; porém, levantaria em ponto de telha, caso essas fossem mandadas, pois a única olaria estava fabricando as da igreja.

A obra teve princípio contratada ao mestre Antônio Fernandes da Silveira por 36$000, terminada em 1709, sendo essa casa coberta de palha. Já estava arruinada em 1724, quando o Senado mandou guardar os pelouros na casa do vigário Gabriel Pereira de Araújo.

Em 1729, o ouvidor José Pires de Mendonça, vindo em correição, mandou consertá-la e fazer outro lance, no terreno anexo, para servir privativamente de cadeia; ficando o antigo somente para Vereança. Ainda coberta de palha, sem alicerce ou fundamentos, em 1735, já estava incapaz de servir.

Foi o Corregedor Agostinho Pacheco Felix, quem autorizou dispender com a obra seguinte; uma obra assobradada, construída pelo mestre carpinteiro Constantino Soares que entregou pronta em 1736… com alguns reparos, serviu até 1753, quando outra foi construída ainda de madeira, mas finalmente, coberta de telhas. Este edifício antecedeu o atual.

Com a vinda do Corregedor Manoel Carlos da Silva Gusmão, em 1781, deu-se início ao projeto de construção de um novo edifício; para isso o Vice Rei Conde de Rezende, mandou em 1793 o risco da obra. Em 04/04/1794 lançou-se a Pedra Fundamental, na presença da Câmara em corpo, presidida pelo Corregedor José Pinto Ribeiro, sendo o terreno alinhado onde tinha sido a cadeia velha.

Foto: Fernando Antônio Lobato Borges

Foram gastos 4 contos de Réis, ou 10.000 cruzados, na obra que teve mestre carpinteiro Manoel Francisco da Encarnação e mestre pedreiro Manoel Barreto.

Com 52 palmos em quadra de terreno, tinha dos lados becos com 18 palmos cada. Ficou pronto em 1797, construção tão sólida que dura até os dias atuais. Construído em sua base com pedra e cal, com paredes de 1,20 , teve na época da construção, uma lei da Câmara, determinando que todos os navios vindos da Bahia, deveriam na volta trazer uma porção de ‘pedras de lastro’ para a construção.

A Câmara Municipal, funcionou no prédio até 1894, quando o Presidente Coronel Teixeira, adquiriu um elegante sobrado na rua do Dr. Cordeiro, para onde foi transferida.

O velho sobrado na praça passou a ter outras serventias. Em 1900 sofreu reparos na cumieira..; possui no térreo duas masmorras, uma feminina e outra masculina, cujos acessos se davam por um alçapão no andar superior. Na parte de cima, um salão de reunião, uma sala de Júri e a parte administrativa da municipalidade.

Depois de diversos usos, inclusive a possibilidade de ser demolido, foi ‘Tombado’, nos anos 1960, pelo IPHAN, sendo um dos raros exemplares da época.

Restaurado em 2010, abriga interessante exposição de figuras da época baseadas no mestre Debret.

Foto: Fernando Antônio Lobato Borges

Foto: Divulgação

 

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Breve histórico da Câmara Municipal de São João da Barra

 

Foto: Câmara Municipal de São João da Barra (1918) - Acervo João Pimentel

Foto: Câmara Municipal de São João da Barra (1918) – Acervo João Pimentel

O antigo edifício, onde atualmente está instalada à Prefeitura Municipal de São João da Barra, foi adquirido em 1894, da família Tinoco Sobrinho, pelo Coronel Teixeira, presidente da Câmara.
A partir de então passou a acomodar o erário municipal.

Em 1905, o Almanaque Laemmerth assim se referia:

“A Câmara Municipal funcionou até 1894 no pavimento superior do edifício da cadeia e por decência do Coronel Manuel José Nunes Teixeira, então presidente da Câmara fez aquisição do sólido e confortável edifício da rua do Mercado, com frente para o Paraíba, o qual depois de cuidadosamente reformado foi adaptado para o uso que tem.

No pavimento superior acha-se a Sala das Sessões da Câmara, com elegante mobília adequada para esse fim, tendo à cabeceira da cadeira presidencial um magnifico retrato do Marechal Floriano Peixoto. Procuradoria Municipal; Biblioteca Municipal com elevado número de volumes, entre os quais alguns valiosíssimos e mais outras dependências, no pavimento térreo está a Sala para as sessões do Júri, muito espaçosa e com mobília própria para esse fim; a sala de audiência do Juízo Municipal, a do delegado e do sub-delegado de polícia; do Juiz de Paz, a Sala da Aferição e mais outras dependências.”

 

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Nossa Senhora da Penha: Padroeira de Atafona e dos pescadores

10517962_1445610555722901_4431568945071723256_nMuito antigo é o culto doméstico de Nossa Senhora da Penha em São João da Barra; tão antigo e profundo que hoje supera o do padroeiro São João Batista. Sabemos que está ligado ao culto da santa em Vitória no Espírito Santo.

De lá vieram muitos povoadores, nos trazendo este culto divino. O brilhante Dr. Ruy Alves, médico de nossa terra e grande cronista, no jornal Folha Nova de 02/05/1976, escreve sobre a igreja e sua fundação; sendo o primeiro a escrever sobre isso. Diz ele que “Foi aos 09/01/1857 que a viúva do Comendador Joaquim Thomaz de Farias, isto é, D. Francisca Barreta de Jesus Farias, segundo escritura da mesma data deu a N. S. da Penha (de Atafona) ” trinta braças de terra de frente, e quarenta de fundos, no lugar denominado Barra, para edificar sua capela” A doação no valor de 100, 000 réis, onde a doadora diz que a Irmandade ou Devoção de N. S. da Penha, fica sujeita “as marinhas que são de dez braças para terra dentro e as trinta de frente afora a Nação.”

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E mais, exigia que a capela fosse construída dentro de cinco anos e que caso não façam, ficaria sem efeito o que ela doara, ainda exigiu que “nenhuma pessoa poderá edificar casas nas referidas terras, nem mesmo quando a Senhora tiver sua Irmandade organizada”, entendendo que a irmandade veio então, posterior à doação. Os confrontantes do terreno eram “pelos lados de cima e de baixo e para fundos com terras dela doadora, e pela frente com o Rio Paraíba…”

Por outro lado, Fernando José Martins, que era irmão de D. Francisca Barreta, diz em sua magistral obra publicada em 1868 que “…uma vistosa capela dedicada também à virgem da Penha está agora em progressiva construção no pontal do sul da barra do Paraíba. O templo, segundo as dimensões, é majestoso e promete ser acabado em breve e com maior asseio atento aos cuidados e desvelos de seus fundadores e atuais diretores. O local é aprazível; é talvez este edifício feito por cima do aterro da primeira casa levantada ma barra do célebre Paraíba do Sul, pelos anos de 1622. ”

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Contudo, não foi tão rápido que a obra terminou, o historiador campista Alberto Lamego, em sua obra ” Efemerides da Terra Goitacá”, pág. 374 diz que “…a igreja de N. S. da Penha, na Atafona, foi iniciada em 24/12/1878, e concluída em 1882, devido aos esforços do irmão João Candido Dias da Mota, que tem seu retrato na sacristia. “A primeira reunião dos fundadores da igreja e que constituíram a Irmandade no consistório da matriz nesta data.” que seria da fundação da irmandade e no principio da construção da capela, fato anterior.

O altar da padroeira é visitado a todo o momento pelos fiéis que vêm pagar suas promessas, ornamentando o altar na maioria das vezes com rosas brancas em homenagem a Santa. Outra prática muito comum é o romeiro trazer velas e peças de cera, representando partes do corpo, onde receberam graças atribuídas à intercessão de Nossa Senhora da Penha.Dr. Ruy Alves, que foi presidente daquela irmandade, transcreve dados do jornal “São João da Barra”, em que os dados narrados são mencionados. Eis portanto uma síntese de como surgiu o culto daquela venerada Santa de Atafona.

 

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O último Coronel

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Foto: Divulgação – Fernando Antônio

O “coronelismo” foi a prática política que vigorou no Brasil após a proclamação da república em 1889.

Substituindo os antigos “barões”, também proprietários de terras e riquezas, gozavam de privilégios e suas carreiras políticas estavam alicerçadas em prestigio e dinheiro.

Em nossa cidade, além dos coronéis da terra e da cana de açúcar, tivemos os Coronéis da Navegação: o Cintra, o Teixeira, o Pinto da Silva e o Oliveira Cruz dentre outros.

Se faziam vereadores e os mais proeminentes chegavam à Presidência da Câmara em que exerciam o poder executivo, contratando obras e serviços e nomeando cargos numa flagrante troca de favores nas diversas camadas do poder.

Nascido em São João da Barra, na década de 1890, filho do Tabelião Coronel Luiz Alves da Silva e D. Alexandrina Pinto Machado da Silva, o Coronel Amando Alves, foi o último representante destes políticos que tinham no “voto de cabresto” suas bases.

Influente tabelião em sua época, do grupo do Coronel João de Almeida, líder político da virada do século; Amando foi Presidente da Câmara eleito na disputada eleição de 26/01/1919, vencendo o Major José França da Graça, pleito concorrido em que os jornais ‘O Luctador’ e ‘Combatente’ defendiam cada um, um partido.

As vésperas da eleição, invadiram a sede do jornal ‘Combatente’, do Capitão Nelson Zuanny Delphim Pereira, cunhado de Amando e líder da oposição; destruindo o maquinário jogando a impressora no riacho do “poço”.

Casado em dezembro de 1902 com D. Virgilina do Amaral, filha de Rosa Maria dos Santos Ramos e Patrício Amaral, tiveram os filhos Alexandrina que se casou com o Comandante Luiz Monteiro de Barros; Drº. João Manoel Alves, tabelião casado com D. Olga Burgelly; Drº. Newton Alves, promotor público, casado com D. Izabel Nunes, pais de Moema Magalhães; Drº. Luiz Alves, médico e Drº. Ruy Alves médico casado.

Em 1917, o Coronel João Almeida publica Mensagem oficial, como Presidente da Câmara, afastado, prestando contas da administração de seu vice, Amando Alves, nela declara que a receita da Câmara no ano de 1916 na presidência do Drº. Eduardo Jose Manhães, tinha sido 42:023$262, enquanto seu amigo e correligionário tinha elevado a receita daquele ano para 50:841$013, graças a uma boa administração.

O Coronel Amando Alves, foi o último de sua categoria. Na eleição seguinte elegeu-se o primeiro Prefeito Felicíssimo Francisco Alves e os Chefes do Executivo não mais presidirem as Câmaras que passaram a funcionar apenas como Casas Legislativas.

Outros tempos, outros modos.

Na foto tirada em 1927- Bodas de Prata do Casal, Virgilina e Amando posam sentados ao centro de filhos, genro e nora.

 

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Um Conde Holandês em Atafona

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

O jornal sanjoanense “Primeiro de Março” de 01/04/1875, trouxe curiosa notícia que resolvemos transcrever.
” Um facto Histórico de Grande Vulto – Hontem, abrindo-se um poço na barra, perto da casa da Câmara Municipal, encontrou-se, segundo nos informou pessoa fidedigna, um caixão de chumbo e vestígios de estar dentro d’outro de madeira, do qual existiam pequenos fragmentos.

O caixão de chumbo tem de comprimento 1,76cm e de largura 1 metro , é soldado e de forma abaulada.
Levadas algumas pessoas pela curiosidade dessoldaram parte da tampa, a dar lugar a examinarem o que conteria dentro.

Suspendida a parte dessoldada reconheceram existir dentro uma múmia ou o corpo de um indivíduo de altura regular, perfeitamente conservados os vestidos.O cadáver estava vestido de calça de cachemira branca com galão de ouro, largo, e farda de Almirante, tendo ao lado espada com os copos cravejado de pedras finíssimas e riquíssimo chapéu armado.

A múmia ou féretro foi conduzido para a igreja, onde tem sido extraordinária a concorrência dos curiosos para ver o fenômeno, que dá uma boa ideia de que a nossa barra já foi, em épocas longínquas, visitada por pessoas ilustres.
A múmia se achará exposta à curiosidade dos visitantes por estes três dias, findos os quais será soldado de novo o caixão de chumbo e metido em outro de madeira, afim de melhor ser remetida à múmia para o museu.

Suscitou-se a questão entre alguns presentes quem seria o personagem. Houveram opiniões vagas a respeito, prevalecendo a de um dos circunstantes que corroborou com o seguinte trecho, que leu numa obra de Southey: ‘No ano de 1650 mais ou menos, no tempo do domínio dos Holandeses na capitania de Pernambuco, saiu do porto de Amsterdam uma frota de 30 velas , ao mando do almirante Conde Astolpho de Esse, com destino a Pernambuco.

Passada a equinócial, a dois graus de latitude sul, sobreveio uma terrível tempestade de E. N. e N. O. muito costumeiras nestas paragens, que fez a Nau Chefe separar-se dos outros navios. Depois de ter a Nau Chefe lutado mais de 20 dias com mar e vento abrigou-se em um surgidouro pouco ao sul da Enseada dos Pargos.

Indo à terra o Conde Astolpho reconheceu ser o rio bastante largo, a barra estreita e baixa. Colocando-se no pontal do sul extaziou-se com a bela vista, e dissera aos de sua comitiva: que a não ter deveres a cumprir jamais abandonaria tal lugar e o disputaria a Gil de Góis ou aos seus herdeiros.

Voltando o almirante para bordo foi acometido de um ataque, estando nos paroxismo pediu que, no caso de morrer, dispensava as honras devidas, e queria ser enterrado com as suas ensignias nas belas areias que tinha pisado no majestoso Brasil.

Este pedido foi satisfeito, por isso não há dúvida ser a múmia o Almirante Conde Astolpho de Esse.” É o que nos contou o nosso informante e assim o noticiamos, por nos merecer consideração e também a grande descoberta que muita atenção deverá merecer e utilizar a história ainda mais.

Leia também:

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